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Centenária benzedeira bageense conta história de cura, amor e fé

Por João A. M. Filho

Era um dia típico de outono na Região da Campanha em 13 de maio de 1918, quando nasceu Olímpia Dutra Poschi. A Lei Áurea completava meros 30 anos naquele mesmo dia, quando foram libertados os escravos para logo depois os jogar na miséria e indigência, que, em muitos casos, perdura até hoje. De acordo com o censo da época, Bagé tinha em torno de 40 mil habitantes, 33% da população atual. A Grande Guerra ainda acontecia na Europa, porém, os efeitos eram sentidos no além-mar, quando a mãe de Olímpia, Ana Joaquina Nogueira Dutra, morreu durante a pandemia da famigerada gripe espanhola, quatro meses depois do nascimento da filha. Hoje, 101 anos, ou exatos 36 916 dias depois, Olímpia é a matriarca de uma família de 12 filhos – nove ainda vivos-, 34 netos e cerca de 50 bisnetos – ela não tem certeza do número exato-, e é uma das últimas bageenses vivas que curou centenas, senão milhares, por meio da benzedura.
O sorriso fácil e a simpatia da centenária senhora aposentada que prefere ficar sossegada numa casa localizada no bairro Alcides Almeida, aos cuidados de uma das filhas, guarda a história de uma época onde a grande maioria não transitava com carros ou tinha televisão e rádio em casa, quanto mais uma geladeira. Ela morava na cidade, mas se mudou para o interior ao se casar e lá trabalhou para cuidar dos filhos e, segundo a filha, Iolanda Dutra Poschi, 79 anos, sempre carregou consigo a fé e o dom de curar e tirar a dor; numa época que o atendimento médico era fato raro para quem não era estancieiro nestas paragens. “Me criei desde pequena vendo a mãe benzer e curar. Eu mesma, com quatro anos, sofri uma queimadura no abdômen e ela, com o toque e a reza para Nossa Senhora da Penha, fez a dor passar. As pessoas vinham pedir ajuda para todo tipo de problema de saúde”, comentou.

Sincretismo
Muito ligada à fé, ela é devota também de São Jorge, ou Ogum, para a Umbanda. Olímpia praticou por mais de 60 anos a cura espiritual e cuidava de um centro de Umbanda Espiritualista em Bagé, até que a pedido dos filhos, encerrou a atividade devido à idade avançada. “As pessoas não tinham condições de ir a médicos e certa vez, uma menina que muito sofria de desmaios foi curada pela prece e o toque de minha mãe”, lembra Iolanda. Doutra feita, Olímpia estava em Porto Alegre, – “Quando vi uma moça muito nova com paralisia facial. Parecia que ela usava máscara. Fiz uma prece, toquei no rosto dela e a paralisia se desfez. Nunca mais vi a moça”, disse Olímpia.
Para curar e tirar a dor, a tradição dos curandeiros recorria a símbolos que se perderam ou se mantém vivos por poucos estudiosos da cultura popular, que, na época, já sofria com as perseguições e o pouco caso da maioria que tinha a oportunidade de sentar em almofadas de seda. Porém, naqueles tempos, não foram poucos os que procuraram Olímpia em busca da prece ao Caboclo Pena Branca, personagem histórico de um índio da nação Caramurú-Tupinambá do Brasil Colonial, a quem era atribuídos poderes de cura e de supressão da dor, afastar mau-olhado, além de diversos cantos e ensinamentos sobre espiritualidade. “Muitas crianças eram trazidas até ela para tirar “sapinho”, “cobreiro”, dores e ferimentos. Os mais velhos recebiam tratamento para todo tipo de doença, desde reumatismo até dor de cabeça e de estômago. Ela fazia as preces e a dor cessava na hora”, contou Iolanda. “Quando se conta as histórias das pessoas que ela curou, ela apenas responde que foi Deus”, disse a cuidadora de Olímpia, Maria Cândida Rodrigues Pires, 66. Ela, que há três anos cuida do bem-estar da idosa, iria ficar somente por dois meses. Desde que conheceu a “vovó”, não quis mais deixar o trabalho.

Família
Aos que ainda lembram quem é Olímpia na comunidade, a centenária benzedeira recebe visitas diárias de amigos e parentes que relembram as histórias de Olímpia, que sorri e tenta participar do diálogo. Com a audição limitada pela idade, a conversa tem que ser também por gestos, mas a memória de muito do que ela viveu ainda está presente, como os versos que trocava com o marido. Era uma forma de expressar apreço e carinho, por vezes deboche, por vezes brincadeira, mas sempre com significado. É como ela lembra do companheiro que a deixou viúva há 36 anos, em 1983. Nascido em 31 de janeiro de 1897, Carlos Viegas Poschi teria 122 anos hoje, inclusive, no dia que viu o mundo pela primeira vez, o Brasil recém era governado por seu terceiro presidente da República, Prudente de Morais. Para quem já viveu mais que muitas vidas sem o companheiro com quem constituiu família, Olímpia ainda lembra dos versos que trocava com o marido: “- Do sol em cima d’água,/ és a luz do claro dia,/ és moreno delicado,/ de minha grande simpatia”, disse ela, certa vez. E ele respondeu: “- Dois corações unidos,/ é um viver muito delicado,/ meu coração não pode,/ viver do teu separado”. “Eles eram muito carinhosos um com o outro e toda a família sentia isso. Ela cuidou de nós em uma época em que tudo era muito mais difícil. Até hoje, os netos a procuram e tem muito apreço por ela”, disse Iolanda. Hoje, os filhos, netos e bisnetos de Olímpia vivem em várias cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e outros estados brasileiros.
Perguntada sobre o que ela mais gosta, a filha e a cuidadora logo destacaram que a aposentada é fã declarada de Roberto Carlos. Ela ainda canta e recita versos que carrega na memória. “Quando ela completou 100 anos, fizemos uma grande festa, com muita música, pois ela adora. Dia desse ela cantava pela casa: ‘Como é grande,/ o meu amor,/ por você’”, comentou Iolanda.
Assim como a fórmula para bebês acabou com a profissão da ama de leite, a medicina moderna e a tecnologia fizeram com que as tradições das benzedeiras praticamente desaparecessem da vida atual. Olímpia não deixará herdeiros na família para levar adiante a tradição que sustentou por mais da metade da vida. Porém, a explicação pode estar justamente no que torna esta centenária uma figura singular de uma Rainha da Fronteira do século XXI . “Ela foi extraordinária em tudo que fez como benzedeira, com a simplicidade que viveu e tantas pessoas que ajudou. Aprendi muito sobre espiritualidade com minha mãe, mas não tenho os dons que ela tem. Às vezes, Deus quer que as coisas sejam assim”, disse Iolanda.

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